Vitória anunciada<br>de Obiang Nguema
Na Guiné Equatorial, o presidente Obiang Nguema, no poder há 36 anos, foi reeleito para um novo mandato de sete anos.
As eleições, às quais concorreram mais seis candidatos, realizaram-se no domingo, 24, sem incidentes, mas os resultados oficiais só hoje serão conhecidos. As primeiras contagens de votos indicam, sem surpresa, que a vitória é esmagadora, na ordem dos 98 por cento.
Acompanharam o escrutínio observadores da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), de que a Guiné Equatorial faz parte desde 2014.
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 73 anos, chegou ao poder em 1979, após derrubar o primeiro presidente daquele pequeno país da África Central, um tio seu, Francisco Macias Nguema, acusado de práticas ditatoriais, incluindo o assassinato de opositores.
O actual regime tem sido criticado, por partidos políticos nacionais e organizações estrangeiras ditas defensoras dos direitos humanos, de repressão sobre os opositores políticos, de censura aos media e de corrupção em grande escala entre as elites governantes.
Nestas presidenciais, Obiang Nguema foi apoiado por uma coligação de 10 partidos, entre eles o seu Partido Democrático da Guiné Equatorial, no poder.
Os seus adversários, pouco conhecidos ou sem grande peso político, foram Bonaventura Monsuy Asumu, do Partido da Coligação Social Democrata, Carmelo Mba Bakale, da Acção Popular da Guiné Equatorial, Avelino Mocache Mehenga, da União do Centro-Direita, e três candidatos independentes que nem sequer conseguiram legalizar os respectivos partidos.
A Frente de Oposição Democrática, coligação dos mais conhecidos partidos oposicionistas, apelou em Março ao boicote eleitoral, prevendo que estavam reunidas todas as condições para a existência de «fraudes». Integram esta frente o principal partido da oposição, a Convergência para a Democracia Social, a União Popular e o Movimento para a Autodeterminação da Ilha de Bioko.
«Pode prever-se o resultado graças às múltiplas irregularidades e fraudes já preparadas», afirmou à agência noticiosa francesa AFP, ainda antes do começo da campanha eleitoral, Andres Esono, secretário-geral da Convergência para a Democracia Social, única força oposicionista representada no parlamento, com um único deputado e um senador. «Obiang Nguema ganhará com ou sem boicote», resumiu.
No começo da batalha pela sua reeleição, o presidente (Zé Bere Ekum, em língua fang, qualquer coisa como «a pantera vigilante») tinha prevenido os guineenses-equatorianos: «Eu sou o candidato do povo, quem não votar por mim rejeita a paz e opta pela desordem». Num comício no estádio de Malabo, a capital, explicou a sua longevidade política – é o chefe de Estado africano há mais tempo no poder: «Muitos dizem que estão cansados de me ver, há 36 anos já, mas, sim, consagrei a minha vida pelo país».
À revista Jeune Afrique, prometeu que está será a última vez que se candidata. Está pouco preocupado com a «desaprovação da comunidade internacional» pelo seu estilo de governação. Sobre as acusações de corrupção, diz que se trata de «uma estratégia para desestabilizar a Guiné Equatorial». E, acerca das alegadas violações dos direitos humanos, é categórico: «Não se passa nada quanto a esse assunto».
Escravos e petróleo
Antiga colónia espanhola que acedeu à independência em 1968, a Guiné Equatorial é hoje o terceiro maior produtor de petróleo da África subsaariana. Graças aos 280 mil barris de crude por dia, tem um dos mais elevados rendimentos por habitante do continente, ainda que a riqueza proveniente da exploração do petróleo, por companhias norte-americanas, esteja concentrada nas classes dominantes e as desigualdades sociais sejam profundas.
Com 28 mil quilómetros quadrados – um pouco menor do que o Alentejo – e um milhão de habitantes, a Guiné Equatorial tem uma parte continental, o antigo território do Rio Muni, entre os Camarões e o Gabão, e uma parte insular, as ilhas de Bioko (antiga Fernando Pó, navegador português que ali chegou em finais do século XV), Ano Bom, Corisco e Elobey, entre outras, no Golfo da Guiné.
Os portugueses transformaram as ilhas de Fernando Pó, Ano Bom e Corisco em entrepostos para tráfico de escravos, durante 300 anos, até que as cederam a Espanha, no último quartel do século XVIII. Em Ano Bom, sobrevive um dialecto, o Fá d’Ambô («falar de Ano Bom»), com base no português, semelhante ao crioulo das vizinhas ilhas de S. Tomé e Príncipe.
Além do dinheiro do petróleo, essa terá sido a única razão que justificou a entrada da Guiné Equatorial na CPLP…
Acompanharam o escrutínio observadores da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), de que a Guiné Equatorial faz parte desde 2014.
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 73 anos, chegou ao poder em 1979, após derrubar o primeiro presidente daquele pequeno país da África Central, um tio seu, Francisco Macias Nguema, acusado de práticas ditatoriais, incluindo o assassinato de opositores.
O actual regime tem sido criticado, por partidos políticos nacionais e organizações estrangeiras ditas defensoras dos direitos humanos, de repressão sobre os opositores políticos, de censura aos media e de corrupção em grande escala entre as elites governantes.
Nestas presidenciais, Obiang Nguema foi apoiado por uma coligação de 10 partidos, entre eles o seu Partido Democrático da Guiné Equatorial, no poder.
Os seus adversários, pouco conhecidos ou sem grande peso político, foram Bonaventura Monsuy Asumu, do Partido da Coligação Social Democrata, Carmelo Mba Bakale, da Acção Popular da Guiné Equatorial, Avelino Mocache Mehenga, da União do Centro-Direita, e três candidatos independentes que nem sequer conseguiram legalizar os respectivos partidos.
A Frente de Oposição Democrática, coligação dos mais conhecidos partidos oposicionistas, apelou em Março ao boicote eleitoral, prevendo que estavam reunidas todas as condições para a existência de «fraudes». Integram esta frente o principal partido da oposição, a Convergência para a Democracia Social, a União Popular e o Movimento para a Autodeterminação da Ilha de Bioko.
«Pode prever-se o resultado graças às múltiplas irregularidades e fraudes já preparadas», afirmou à agência noticiosa francesa AFP, ainda antes do começo da campanha eleitoral, Andres Esono, secretário-geral da Convergência para a Democracia Social, única força oposicionista representada no parlamento, com um único deputado e um senador. «Obiang Nguema ganhará com ou sem boicote», resumiu.
No começo da batalha pela sua reeleição, o presidente (Zé Bere Ekum, em língua fang, qualquer coisa como «a pantera vigilante») tinha prevenido os guineenses-equatorianos: «Eu sou o candidato do povo, quem não votar por mim rejeita a paz e opta pela desordem». Num comício no estádio de Malabo, a capital, explicou a sua longevidade política – é o chefe de Estado africano há mais tempo no poder: «Muitos dizem que estão cansados de me ver, há 36 anos já, mas, sim, consagrei a minha vida pelo país».
À revista Jeune Afrique, prometeu que está será a última vez que se candidata. Está pouco preocupado com a «desaprovação da comunidade internacional» pelo seu estilo de governação. Sobre as acusações de corrupção, diz que se trata de «uma estratégia para desestabilizar a Guiné Equatorial». E, acerca das alegadas violações dos direitos humanos, é categórico: «Não se passa nada quanto a esse assunto».
Escravos e petróleo
Antiga colónia espanhola que acedeu à independência em 1968, a Guiné Equatorial é hoje o terceiro maior produtor de petróleo da África subsaariana. Graças aos 280 mil barris de crude por dia, tem um dos mais elevados rendimentos por habitante do continente, ainda que a riqueza proveniente da exploração do petróleo, por companhias norte-americanas, esteja concentrada nas classes dominantes e as desigualdades sociais sejam profundas.
Com 28 mil quilómetros quadrados – um pouco menor do que o Alentejo – e um milhão de habitantes, a Guiné Equatorial tem uma parte continental, o antigo território do Rio Muni, entre os Camarões e o Gabão, e uma parte insular, as ilhas de Bioko (antiga Fernando Pó, navegador português que ali chegou em finais do século XV), Ano Bom, Corisco e Elobey, entre outras, no Golfo da Guiné.
Os portugueses transformaram as ilhas de Fernando Pó, Ano Bom e Corisco em entrepostos para tráfico de escravos, durante 300 anos, até que as cederam a Espanha, no último quartel do século XVIII. Em Ano Bom, sobrevive um dialecto, o Fá d’Ambô («falar de Ano Bom»), com base no português, semelhante ao crioulo das vizinhas ilhas de S. Tomé e Príncipe.
Além do dinheiro do petróleo, essa terá sido a única razão que justificou a entrada da Guiné Equatorial na CPLP…